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Minnesänger

Poeta-trovador,
- cantava-lhes d`amor,
quando ia vê-las...
Tinha uma voz de tenor e o condão de adormecê-las...

(Era uma espécie de extintor
d`estrelas...)



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SERENATA A MEUS UMBRAIS
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AQUELE QUE DO NORTE DA PROVÍNCIA REGRESSOU (Con... 181


APOTEOSE
        Que geração tão sem par         (assunção d’ar, terra e mar)         ao nosso olhar se descerra?         Esta floração solar         d’ombros em onda a passar         — fez a guerra. Andou na guerra!         E é sem histórico estrondo         que a Pátria os contempla e guarda,         no metal que vai impondo         ao peito de cada farda.         Sem desdouro         de qualquer outro tesouro         (Povo meu!) que idealizes,         Vem aqui ouvir o côro:         — todo o côro das raízes!...
VELADA D’ARMAS E D’ALMAS
            À memória do 1º Cabo, António de             Oliveira Paulino, meu devotado e             sempre lembrado condutor-auto.         1.         A dois dedos da madrugada         me adianto         para o camarada         morto — e canto, canto
VELADA D’ARMAS E D’ALMAS (2.) 182


        como quem aponta a espada
        ao espaço do próprio espanto!...

        Fixar-lhe a face fechada
        é agasalhá-lo no manto
        do tempo que ele arrecada
        e cujo tampo levanto

        É calcorrear uma estrada
        com memórias a cada canto,
        entoar a mais bela balada
        do desencanto.

        E não há nada
        que valha tanto!

        A dois dedos da madrugada
        — canto!, canto...
        Camarada:
        Em pranto, canto!


        2.         Quedou sempre manhã cedo         Na vida do camarada         Que o degredo não degrada,         Vem a medo, bem-amada         E singra e sangra em segredo         (E singra e sangra, sagrada)
VELADA D’ARMAS E D’ALMAS (3. a 5.) 183


        3.

        Pelas alturas se altera
        Que outra vida o persuade
        A ficar, em sonho, à espera
        — À espera da eternidade...

        Hoje é indício de enseadas
        Além-Morte (A Morte vence-o,
        Com o cilício e as ciladas
        Do seu solene silêncio...)


        4.         Agora, ei-lo a sós         Por trás da muralha         Do sono, e da voz         Que o silêncio agasalha.         Da guerra descansa,         Em paz — tal maré         Sobre quem só é lembrança         Ou já nem lembrança é.
        5.         Moída mais que por mós         A memória dá recado         De um coração que por nós         Bate apesar de enterrado.
VELADA D’ARMAS E D’ALMAS (6. e 7.) / ALFERES - ... 184


        Concha do chão, sonho a sós,
        Na morte o encontro marcado
        Do silêncio com a voz,
        Do presente com o passado.


        6.         Veio a noite, e a paz após.         De vala a vale embalado,         Ali jaz, sono sem foz,         Em solidão o soldado,         Atrás do remorso atroz         Que punge e chaga do lado         De um coração que por nós         Bate apesar de enterrado...
        7.         Pela dádiva desmedida         Do eterno camarada,         — Levo o tempo de vencida.         E trago na minha vida         A morte dele hospedada!
ALFERES — INFANTE
        À luz da data o relembro         Num sem-número de sombras fiéis:         Vinte e três, mês de Novembro,         Mil nove e sessenta e seis.
ALFERES - INFANTE (Cont.) / CAMPA DE HERÓI / MA... 185


        Um ano já. Mais que humano,
        A todo o pano se isola
        — Nosso alferes miliciano,
        Meu irmão, morto em Angola!


CAMPA DE HERÓI
        O muro,         Uma árvore,         E o murmúrio         Do mármore...
MANHÃ (DE JUNHO) LUSÍADA
        Sobre o ameno destino,         O vendaval que não vai!...         — Pequeno povo latino,         Portugal de novo a pino.         Plaino pleno. Aceno de sino.         Sinal de Sinai!         Perpassa uma onda em terra,         Ombros a onda nos traz.         E a Raça em flor se descerra         — Que esta paz chama-se guerra,         Chama-se guerra esta paz.
MANHÃ (DE JUNHO) LUSÍADA (Cont.) / DIA QUE A DA... 186


        Mês d’armas — ao sol soldado.
        Dia crente. Ar, Terra e Mar
        Em parada ondulatória.
        — E o passado no presente
        A passar
        Na nossa História!


DIA QUE A DATA DETÉM
        1.         Andava a cruz em cruzada         — dia que a data detém!         Ninguém dava fé de nada.         Em volta, nada. Ninguém.         Eis senão quando, esperada?!...,         Eis senão quando, porém,         Do bosque surde a emboscada.
        2.         O capitão... A granada,         Que num silvo sobrevém.         E a coluna, descolada.         (Aquela coluna calada         Que a colina ao colo tem...)
DIA QUE A DATA DETÉM (3.) / CLAMOR 187


        3.

        Só corpos e almas a eito,
        que a Morte envolve em abraço.
        Jaz o capitão eleito
        — seu peito
        desfeito
        em espaço!...


CLAMOR
        Sob o signo do sangue todo o céu se descerra         — Ó Povo incessante, fardado, mal-ferido!...         É preciso adiar o enterro da Terra,         Ir ao centro do Sol de certezas vestido.         — A minha geração, senhores, anda na guerra.         Por isso a paz que traz terá sentido!
MOTE PARA MOTIM, com ASSINATURA SOLAR 188


«MOTE PARA MOTIM1, com ASSINATURA SOLAR» (Amotinação de Líricas e Heróicas: 1965/1970)
______________     
1 Segunda edição, refundida e aumentada.
CANTO DE APRESENTAÇÃO 191


CANTO DE APRESENTAÇÃO
        Eu sou este rosto enxuto,         Esta inércia, este assédio.         Estes farrapos de um luto         Entre dez dedos de tédio.         Sou este canto interdito,         Esta angústia toda aos nós         Que é garganta do meu grito         E é boca da minha voz!         (De encontro ao silêncio impreco.         Mobilizo a arremetida:         Voz que chama pelo eco,         Do próprio eco vestida!)         Sou este império de ideias         Sem estrada,         E estas mãos, estas mãos cheias         De nada...         Fonte do tempo, a infância         Rompe, em sonho, do passado.         Os olhos pedem distância         Ao horizonte fechado.         Regaços a que remonte,         Se a sombra, só, me abre os braços?         (Coroado de horizonte,         Trago o chão colado aos passos...)
CANTO DE APRESENTAÇÃO (Cont.) / De onde segreda... 192
        Mas nada disto traduz,
        Por mais que cante e que conte.
        (Peço música de luz. E, depois, dois ombros nus
        Peço, então, por horizonte!)

        Sei lá com o que a alma arrosta...
        Sei que assim que a Morte ronde
        Só o céu dará resposta,
        Já que a Terra não responde.

        Curso de rio sombrio
        Em que me é dado seguir,
        — Vou, sem desvão ou desvio,
        E dou vazão ao vazio de existir...

        E quando rio, rio
        Para me fazer rir!


        De onde segreda         o segredo         Lento da lenda         moribunda         Que ostenta a moeda         do medo         Ao fundo da fenda         mais funda?
FIDELIDADE 193


        De onde, Senhor meu Deus, há-de
        ser senão da tempestade
        no exíguo espaço que habito

        Entre uma grade
        e um grito?


FIDELIDADE
        Ao colo da noite me sento         Como alguém que se despede.         E, água sem fonte, experimento         O sabor da própria sede.         Não há sonho que desponte         Da esfera de sombra ôca.         Da sede nasce uma fonte         — Sede sem boca!         Que esta sede imensa, trago-a         Desde além da noite rouca.         À boca da vossa boca         A água, porém, é pouca.         (De sede me cresto.         — Quem sois? A que vim?...         É por dentro, o protesto.         Foi por dentro, o motim!         Mas não mudo num único         Gesto; e assim         — Até ao último resto         De mim!...)
INCURSÃO 194


INCURSÃO
        Interdito,         Tal quem comete um delito         — Hora a hora eu me visito         (Esteja cá como estiver...)         Ou ditame ou veredicto,         Avanço à gruta que habito         — A grande gruta em granito         Gruta onde o sonho é um detrito         Qualquer...         Entanto, a mim circunscrito,         Nem na órbita em que gravito         Eu me admito,         Sequer.         E, ao limiar, vacilo. Hesito.         Dou o dito por não dito.         De dentro os olhos desfito.         Quando, do fim do infinito         De mim, alguém — já perito;         Já perito e expedito -         Desfere um grito,         Que fere.         E de mim, então, me precipito.         E a solidão, de novo,         Adere.
Porque (enfim...) / ABRIGO DO DESENCANTO 195


        Porque (enfim...)         É este o preço,         Dentro de mim         Apodreço.         E em voz rouca         Falo à vida             Pela boca         De uma ferida.
ABRIGO DO DESENCANTO
        Entre a chegada         E o regresso,         Ninguém me peça nada.         Eu nada peço.         Ninguém me chame,         fale — mal ou bem.         Que eu aceito ditame         igual,         e também não chamo ninguém...         Fique isto dito e escrito,         como convém.         Reclamo aqui o veredicto         de não querer fala, apelo ou grito         de ninguém. Ninguém!         É já clássica a posição         dos braços — sempre de bruços.
ABRIGO DO DESENCANTO (Cont.) / RENOVO 196


        — Ainda haverá solução?...

        — Há, sim, uma solução:
        uma solução de soluços!


        Como, não sei.         Sei que vim         E que cheguei -         Eu, sem mim!
RENOVO
        Em sono me alongo         Do Outono à Primavera         (Acordo já outro         No mesmo que era)
        Chamo por mim         — Não respondo.         (Em mim me escondo         De mim!)
CANÇÃO QUE O VENTO ESCUTOU 197


        Mas dentro de mim         Adentro         Sou princípio, fim         E centro!
        As minhas noites, sagre-mas         A música que não se explique,         E que eu às lágrimas,         Às lágrimas         Despique...
CANÇÃO QUE O VENTO ESCUTOU
        Já de mim não me condôo,         ‘trás do anseio sem parede         De abrir asas ao meu vôo,         De dar água à minha sede!         Os sonhos — um regimento         Sem disciplina que os dome.         Daí por que eu me alimento,         Praticamente, de fome!         E vou no vento, no vento         Vou alado às leis de Além,         Levando no pensamento         O sustento que me sustém...
IMARCESSÍVEL / HAMLÉTICA 198


IMARCESSÍVEL
        Fico para aqui assim         Toda a noite a madrugar         E esta alma é um jardim         Onde ninguém se vem sentar.         De longe, de um botequim,         Tépida boémia de sons -         Sombras de assédio em motim,         Vagons de sonho, vagons...         Sono, tédios sem remédio,         Média-luz... Acordéons...         — Em ondas e mais ondas de mil tons         De entontecer!         (Sinto-me envolver, enfim,         De um jardim         Com bancos bons         Para a gente anoitecer...)
HAMLÉTICA
        Queira, não queira,         Não há maneira         D’hastear nova bandeira         Ou d’arredar a cegueira         Que povoa toda a minha umbrosa ombreira.         Em suma: não há maneira         De eu, assim, desalojar o desalento.         Que o desencanto se abeira         De mim         E dos lugares que frequento!
HAMLÉTICA (Cont.) / CANTO PASCAL 199


        Noite minha — funda olheira,
        D’enfermeira feiticeira,
        Fronteira do meu 
        Tormento...

        (Cá dentro, Hamlet e a caveira
        Dialogam a noite inteira.
        Lá fora, só a pieira, 
        Só a pieira
        Do vento...)

        — Por mais que queira,
        Não há maneira.
        Rebento!


CANTO PASCAL
        Senhor,         ó meu estranho acompanhante.         Dá-me o Teu lenho, por favor.         É preciso que eu cante,         de dor,         na via-sacra incessante.         É preciso, Senhor! Agora e sempre         e doravante...         Com fervor, a Ti me dou.         Eu próprio carrego a cruz         e vou, Senhor, e vou,         cego de luz!
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