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FILHO PRÓDIGO

Voltei
ao casarão velho,
onde já tudo morreu...
Tirei
a venda ao espelho,
e olhei. Olhei, recuei.
Recuei, gritei:
               - Era EU!



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SERENATA A MEUS UMBRAIS
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CANTO PASCAL (Cont.) / VOLUTA 200


        Na senda sagrada, que à crença recúa,
        Teu rumo adivinho e esta minha marcha acerto
        por onde passada Tua
        é sempre caminho
        aberto!...

        Sagrai-me Teu companheiro
        de itinerário.
        Conduzi-me lá ao topo do outeiro
        onde avulta o madeiro
        do Calvário.

        Que eu não imploro socorro.
        Exangue e contrito,
        Contigo morro
        e Contigo ressuscito!


VOLUTA
        Abissal, absurdo, absorto,         Possesso, em absoluto, de outro círculo maior,         Parto para perto do tal porto         Onde o sonho a que regresso me confere aquele conforto         Que não ronda em meu redor.         De mártir, a Morte vem matar um morto.         (— Caso para dizer: «Tanto melhor!»)         Eu, às cegas, sigo sempre... — direito ao navio torto,         Que, a meio do Mar do Tempo, não é mais que um pormenor.         Descobre-o, curvo, um corvo —         Serve: um corvo — Eu sugo. Sorvo.         — Sinal de seiva e de sangue. Sabor a sal, a suor.
PRELÚDIO / Anda o mundo em mim 201


        E insinuo-me até ao ponto de encontro com o teu corpo
        — Corpo que estas mãos sabem de cór...


PRELÚDIO
        Sob o signo da fragrância,         Toda a África anuncia         Caminhos para a distância         Que a distância distancia...
        Anda o mundo em mim         Tal como eu no mundo.         como eu no mundo.         (O Fim         Fica         Ao fundo...)         Entanto, se enrosque         O sonho à jornada.         — E que eu busque         Em cada bosque         Uma emboscada!
AEROGRAMA / CANÇÃO DE GESTA 202


AEROGRAMA
        Porque a Pátria assim decreta.         Feriu-me a seta         De lado a lado.         Lei da Pátria — voz secreta         Que arrecado.         A mim, que sou poeta,         Sagrou-me e vestiu-me Ela de soldado.         E não contam assombros.         Ainda que eu arda,         Sei que A transporto aos ombros         Desta farda.         Já, porém, o sol descerra.         E, entretanto, tanto faz.         A paz, aqui, chama-se guerra.         Chama-se guerra esta paz.         E por cá ando,         Aqui estou —         Somando         Quanto fui a quanto sou.
CANÇÃO DE GESTA
        Andava a cruz em cruzada         por via da pátria-mãe.         (Já, em lava, a luz, alada,         lés-a-lés, aluía, além...)         Andava a cruz em cruzada         — dia que a data detém!         Ninguém dava fé de nada.         Em volta, nada. Ninguém.
CANÇÃO DE GESTA (Cont.) 203


        Só a coluna, calada,
        à uma firma, formada.
        (Aquela coluna calada
        que a colina ao colo tem...)

        Eis senão quando, esperada,
        Eis senão quando, porém
        (Ninguém dava fé de nada.
        Em volta, nada. Ninguém)
        Do bosque surde a emboscada
        — dia que a data detém!
        (Andava a cruz em cruzada
        por terras da Terra-Mãe!...)

        O capitão... A granada,
        que num silvo sobrevém.
        E a coluna, descolada.
        Sangue. Silêncio. Na estrada,
        Ninguém dá fé de ninguém.

        Só corpos e almas a eito,
        que a morte envolve em abraço.
        Jaz o capitão eleito
        — Seu peito
        desfeito
        em espaço!...
CANTO EM MANHÃ DE CAMPANHA 204


CANTO EM MANHÃ DE CAMPANHA
        Morrermos no mesmo dia         Noivos do mesmo nevão         A água igual da agonia         Desferido a frio a fria         — Mais que fria e que sombria —         Via da sacra união.         Morrermos no mesmo dia         Irmos por ermos irmão         Que onde antes aves havia         Onde sempre amanhecia         Sol no céu da solidão         Já só álgida nostalgia         Vôa virada ao Verão         A apontar toda a apatia         Em que as estátuas estão         Morrermos no mesmo dia         Pedras do mesmo padrão         Todo o condão e a magia         Toda a magia da acção         Gerando a interior geografia         De mapas sem dimensão         Morrermos no mesmo dia         Desvios de um só desvão         Irmanados na harmonia         De silêncio que nos guia         Sem esgares se esgueira esguia         Gosto a angústia que angustia         Em adeus de mão a mão
CANTO EM MANHÃ DE CAMPANHA (Cont.) / MANHÃ D’A... 205


        Morrermos no mesmo dia
        E a sombra nos seja então
        Aquela mansão macia
        — A mais macia mansão —
        Onde só o sonho espia
        E desafia espião
        Visando a voz que à vazia
        Vibração vá dar vazão

        Morrermos no mesmo dia
        Com o sol por direcção
        E uma estação de alegria
        Em bênção desça aos que estão
        Condenados à poesia
        Perdido todo o perdão

        Morrermos no mesmo dia
        Noivos do mesmo nevão
        Solidão por companhia
        Manhã d’armas meu irmão.


MANHÃ D’ARMAS
        Ombros em onda. Ondas pardas.         Ronda de fardas e fardas.         Corpo de guerra, em renovo!         Fulgurações marciais         De espingardas.         Sobre Terra, vibram cardas:         — impressões digitais         de todo um Povo!
MANHÃ D’ARMAS (Cont.) / BALANÇO DOS 27 ANOS 206


        Ó armas e barões assinalados,
        Em resplendor recortados
        Sob um céu azul castor!
        — Surtos de todos os lados,
        no horizonte abrasador,
        Soldados ao Sol dados.
        Soldados, Senhor!


BALANÇO DOS 27 ANOS
                                                Na saudade de meu pai, do avô                                                 Thomaz e da Bilha, minha avó-ma                                                 drinha. Na presença de minha mãe                                                 e de minhas irmãs, de minha mu-                                                 lher e meu filho, Rodrigo Victor.         O que em mim mais sobressai         é a sobranceria secreta         de ter tido um pai         que era poeta -         se bem que também         a fundo cultive         a grande fortuna de ter tido a mãe         que tive.         E de entre as imagens sãs,         (jamais a vida as assole...)         recordo duas irmãs,         louçãs ao sol das manhãs         e ambas lindas como o Sol.
BALANÇO DOS 27 ANOS (Cont.) / MEMÓRIA DE UM DOM... 207


        Em ti, amor, logro o tema
        com que mais me maravilho:
        por ti, vibro em cada poema.
        E tenho um filho!

        Além disto, há a saudade
        profunda que me avizinha
        de sombras de uma outra idade:
        meu avô, a avó-madrinha...

        Doei-me, por fim, a Ti,
        Pátrio Reino, e exauri
        das veias sangue de lei, com fervor:

        — dois anos de alferes servi
        em uma das mais antigas,
        remotas «províncias d’EL-Rei», meu Senhor!...


MEMÓRIA DE UM DOMINGO EM MARRACUENE
        Saio de casa,         meto ao Vale do Infulene.         O ar tropical abrasa         à flor da estrada infrene.         Vou dar a terras de Gaza,         «quadrado» de Marracuene!         Não há sombra que degole,         não há nem nuvem que anule         a solidão do sol         no céu azul.
MEMÓRIA DE UM DOMINGO... (Cont.) / VISITAÇÃO A ... 208


        — Fulgurando à luz do sol,
        o grão-PADRÃO DE MAGUL!

        Primeiro que tudo, a História
        (A Voz da História), baixinho...
        Logo depois, a memória
        E mais todo o seu viveiro
        — Dizem que neste caminho
        andou, em tempos, Mouzinho;
        mais além, naquele outeiro,
        em tempos andou Couceiro!

....................................................................

        Tarde, exausta, de Verão.
        Sul do Save — ó campa rasa!
        (Aceno, de longe, a Gaza
        e componho esta canção
        já a caminho de casa...)


VISITAÇÃO A REINALDO EM S. JOSÉ DE LHANGUENE
        Neste florido rescaldo         do Além,         meu querido Reinaldo         — deve estar-se bem!         Com a alma assim a nu,         já nem mesmo a dor nos fere.         E se bem que o sono farte,         a verdade é que partout         everywhere         em toda a parte,
VISITAÇÃO A REINALDO EM S. JOSÉ DE LHANGUENE (C... 209


        onde quer que a gente escale
        a existência,
        onde quer que o sol nos requeime,
        esta vida tão igual
        idêntica
        the same,

        se nela, enfim, me atordoo
        e até quando a carrego
        de longada

        — é sempre, sempre, sempre
        um vôo
        cego
        a nada!

        Não sei que mais te conte,
        que o costume,
        O mundo segue a ser o lugar
        que tu pressentes.

        E a ponte que lá nos une
        — é estar ausentes!

        Enquanto que em tão florido rescaldo
        do Além
        — é bem como aqui te digo,
        meu caro, querido Reinaldo:
        deve estar-se mesmo bem!
RECADO LÍRICO PARA PORTO AMÉLIA 210


        Entre canteiros de cruzes,
        e tantos corações submersos
        palpitando
        — nem sei como é que não produzes,
        como é que não compões
        uns versos,
        de quando em quando!...


RECADO LÍRICO PARA PORTO AMÉLIA
                                                                A Glória de Sant’Anna         Onde a onde ondulatória         estrada — história         marejada de         memória         Ai longa língua de fogo         líquida fuga         cujo jogo         subjuga         Mês a mês         assim a sós         dentro em mim         (mote ou motim)         é a vez         da tua voz         Já murmúrio, já marmórea         — afogo-a, afago-a.         Mágoa e glória,         mágoa e glória         em «livro de águas»!
ILHA DE MOÇAMBIQUE 211


        Pertenço a teu pranto extenso.
        Mais que lenço que o anule
        o canto vence-o
        — e faz-se «um denso
        azul
        silêncio»...


ILHA DE MOÇAMBIQUE
De repente, acolho a maravilha: religiosamente eu ólho a Ilha. Já não, em turístico catálogo, a gravura ilusória ou tão-pouco o cromo artístico sempre análogo; mas, agora, à flor da própria moldura ondulatória — pálio de aves, ares e águas, e algas álgidas em diálogo: diálogo cálido de tempo e memória, hálito alado do vento em pedras prenhes de História...
ILHA DE MOÇAMBIQUE (Cont.) / REVISITAÇÃO À CIDA... 212


Navio solar
que na cerração andou a garrar,
baixio em baixio,
e aqui veio dar.
Padrão do «desvio da agulha
de marear»,
que a erosão talha e retalha.
Sem cessar, marulha o mar.
Marulha o mar
na muralha...

Às mais índicas audições,
Vozes e vozes em chama:
— à proa, Gama e Camões,
com «As armas e os barões»
de todo um Povo
concitam, de novo,
à Fama!

Cobrindo o litoral, milha por milha,
Que a minha sombra aqui fique
— Ilha
toda de coral.
Ó ilha imemorial!
Ilha de Moçambique!...



REVISITAÇÃO À CIDADE DE REINALDO
Cem por cento de humidade (que é quanto o corpo acarreta). E galgo toda a cidade à procura do poeta.
REVISITAÇÃO À CIDADE DE REINALDO (Cont.) 213


Em sombra,
Reinaldo escreve
ao peso d’a noite longa
de uma vida breve.

Seu vulto abençoo
e a ele me entrego
de entrada
— à luz de um vôo
cego
a nada...

Semicerram-se-lhe os olhos.
No leque de mil caminhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
para morrer sozinhos.

Eu, Rosie... Tu, Baby... Todos nós, sem excepção.
Tu em mim e eu em ti
Estamos ambos condenados, sem apelo, à solidão
(Pelo menos, agora; pelo menos, por aqui).

Resta-nos, quando muito, aprender toda a lição
que nos deu A que morreu mesmo às portas de Madrid!

Cedo à lei do desalento.
E com os quase cem por cento
De saudação-humidade,
Que a pele do corpo acarreta,
Despeço-me da cidade,
Largo de mão o poeta.
VOU-ME EMBORA PRA BRASÍLIA 214


Que saudade, então, me invade?
Que fundo afecto desperta?
Serão de serenidade
Senão que audição secreta?...

— Adeus, cidade.
E poeta!


VOU-ME EMBORA PRA BRASÍLIA
        Abraço a brisa de Abril.         Na brandura abrasadora,         Vou-me embora pró Brasil,         Vou-me embora. Vou-me embora.         Você me cede um corcel         (Decerto cede, Corção.         Lá o nosso Manuel         Não me diria que não.         Mas você bem sabe que ele         É silêncio em digressão...)         Na verdejante vigília         Ponho o meu sonho em desfile.         Vou-me embora pra Brasília,         Que é o brasão do Brasil.         Sem deixar quaisquer indícios,         Sem causar qualquer quesília,         Vou-me avistar com Vinícius,         Vou-me embora pra Brasília,         Vou e vou e vou e vou,         Pra perto de seu Gilberto,         E dessa incessante Cecília         E dalguma Nêga Fulô.         Vou-me embora pra Pasárgada.
4 POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA CULTURAL (I.) 215


        Lá estou bem mais em família.
        Vou-me embora. Decidido:
        Vou-me embora pra Brasília.


4 POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA CULTURAL
I. Acomete, invectiva e descerra o farol indemne à névoa o impondo (Marinetti: «Viva la guerra sola igiene del mondo!») Ignota, a vertente em disparo desde onde estou rasga rua. Na rota insistente do Dia Claro «Orpheu acabou. Orpheu continua». — Até quando, recente? — Até onde, seguro? — Conjugue-se o presente No futuro!
4 POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA CULTURAL (II.) 216


II.

Isenta existe
uma zona exacta,
Zénite do repouso, vórtex
da vida,
de onde Wyndham assiste
e violenta 
e retrata
o vértice luminoso
de silêncios em riste
e em ferida.

Alta, sem data,
abstracta, secreta
— sobre Ezra desaba
a mão que interpreta.

Regata
sem meta,
é a idade que dele
Se desata, projecta
e dilata (dilecta),
a par da metálica
e solar tonalidade,
que se evade
sem cessar,
e sem cessar
se liberta,
desse olhar
de imensidade
que há n’ »O SONO DO POETA».
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