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EPÍGRAFE

Sempre que a Pátria decreta
Vem-nos de Deus o recado
- E veste-se cada poeta
De soldado.







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SERENATA A MEUS UMBRAIS
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4 POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA CULTURAL (III.) 217


Interiormente se estende,
desde logo se distende
e expande
THE WASTE LAND:
um vasto pasto de espantos,
e de espasmos, e de espetos.

— Húmus d’ »OS CANTOS»: d’ «OS CANTOS» e
mais dos «QUATRO QUARTETOS»!


III. Seja lá como fôr, imperioso é que arrases o excesso de sedes que à torrente aflora — Afixador de cartazes nas paredes da Hora, No muro do Momento! — E mais não interessa, à seta do Dia no ventre do escuro, que esse tempo-sudexpress em pontaria ao futuro! E assim expande, assim desterra, assim proclama a toda a parte — A Grande Guerra que vai na Arte!...
4 POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA CULTURAL (IV.) / CANT... 218


IV. — PEQUENA ODE A EUGÉNIO DE CASTRO
                                                            (no centenário do poeta)         Viva lá esse novo-riquismo,         Todo esse exorcismo         De rimas e tropos jamais entrevistos.         Viva que viva o teu catecismo         De «como aprender a fazer Simbolismo».         Glória às horas dos teus «OARISTOS»!         Viva, mais, nesse canto boémio,         Toda a plástica perspectiva.         Que o teu génio, sem progénie,         Meu sempre-jovem Eugénio,         Viva! Viva!
CANTO DE REQUIEM POR THOMAZ DE FIGUEIREDO
        Caneta permanentemente acesa         crepitando em páginas de lei.         Sua pátria — a Língua Portuguesa         ao serviço de Deus! Serviço do Rei!         Último dos últimos lidadores         em combate cerrado aos filisteus.         Cruzada das letras, e de dores,         a honrar Rei, Pátria e Deus.
CANTO DE REQUIEM POR THOMAZ DE FIGUEIREDO (Cont... 219


Pena-pluma de mil e uma fulgurações
(tal arco-íris de música ou florete inquieto)
a conduzir supremas operações
no campo de batalha do alfabeto.

Fidalgo minhoto dos quatro costados.
Ira e amor, conjugados,
eram nele ouro de lei.
E tudo foram golpes dados
por môr de Deus, Pátria e Rei!


MEMÓRIA D’EL-REI, MEU SENHOR
Para a memória removo Tudo o que sei e não sei. Vou-me à História. Ajunto povo Que de novo aclame o Rei! Aguardo sangue que O sagre E silêncio que O recorte. Não há malogro. Há milagre! Já El-Rei volve, da Morte... Em sonho vem, de vencida. Ao espanto aponta a espada, E deixa, na nossa vida, A sua morte hospedada...
MAURRAS / MANIFESTO DE FIDELIDADE 220


MAURRAS
                                                    (tão memorado em campanha)         A esta esperança, que expira,         Espanto expus — não a espada,         A lança, o loiro e a lira         Que eram em tua ira         Sagrada.         Ante o manto da mentira         canto; e o canto traduz         O desencanto — e mais nada.         Tão-pouco mesmo levanto         (se bem que em sonho o desfira)         O santo gume de luz         Que fulge nos braços nus         (Braços de bruços da cruz)         Ó minha cruz gamada!         O santo gume de luz         Que a cruz conduz         À cruzada!...         Mas em teu estro experimento,         Mestre, o esperanto — a espiral.         Porquanto ao meu pensamento         Deste uma estrada real!
MANIFESTO DE FIDELIDADE
        Salazar         — e quanto à memória removo,         — quanto cá dentro amotino!
MANIFESTO DE FIDELIDADE (Cont.) / ROBERT BRASIL... 221


        (Horas e horas sem par
        Na História de um Povo
        A pino!)

        Salazar
        — por entre a sombra a rasgar
        todo o luar de um destino!...

        Tempo que ao tempo futura
        continuidade há-de dar
        (Mesmo apesar da moldura
        Que configura
        O lugar)

        — Salazar
           avulta, fulgura,

        Estátua a toda a estatura,
        Incessantemente a vibrar

        A sua assinatura
        — A sua assinatura
        Solar!...


ROBERT BRASILLACH
                                                        (Heróica triste para ele)         Quedou sempre manhã cedo         Na vida do camarada         Que o degredo não degrada         E vem a medo, bem-amada.
ROBERT BRASILLACH (Cont.) 222


        Era o amor em Toledo
        Era a noite navegada
        Que singra e sangra em segredo
        (Que singra e sangra sagrada)

        Era a parada o desfile
        Era a luz em catedral
        Era a virtude viril
        Num vitral imperial

        Por uma tarde de Abril
        Ou por um Maio estival
        Era afinal o perfil
        De certa colegial

        E era a amizade O anseio
        Que convida à Vida plena
        Desde um pátio de recreio
        A uma sala de cinema

        Ou da cidade a um passeio
        De barco ao longo do Sena...

        Aos pares, Florence e René
        E Patrice e Catherine,
        Vultos que a História revê
        Franco, o Führer, Mussolini

        E centauros centuriões
        Por confins que o sangue invade
        De clareiras de clarões
        E clarins de claridade
INSTANTÂNEOS PARA ELA (1 - 3) 223


INSTANTÂNEOS PARA ELA
                                                        Muito para a Tera 1 Segredos de Deus é-nos dado sabê-los Sempre que a torre Do tempo morre Num poente de silêncio pelo chão... — Por isso, dedos meus por teus cabelos. — Por isso, escorre sol a minha mão!
2 Uma canção anda perto Da canção que então ouvi — Coração, coração Aberto A ti!...
3 Para nós, só esta música baixinho Onde não peco, onde não peco Nem peço senão que nos deixe a sós, Como uma voz— voz a caminho do eco, Tal qual o eco — eco de regresso à voz...
INSTANTÂNEOS PARA ELA (4 - 6) 224


4

Entre lágrimas te canto.
Não há pranto que as esponje
Na manhã anunciada.
Não há canto,
Não há nada.

Apenas tu — que vens de longe,
Vens de longe
E vens cansada...


5 Vejo-te apenas ao luar do que não vi. Ao que não lembro, dou a mão, para esquecê-lo. E atiro-me para a Noite a pensar em ti, Só porque então é noite só no teu cabelo!
6 Eu atolei-me no lodo. Quando do lodo saí, Vesti-me todo — De novo! Vesti-me todo — De ti!...
INSTANTÂNEOS PARA ELA (7) / ARCO DA INSÓNIA 225


7

Noite de sombras em flor!

(Deito o meu sono ao comprido,
E a treva toda é um jardim -

Da côr do vestido
Do sonho de Amor
A que vim!...)


ARCO DA INSÓNIA
Tanto escrevo, ó mão escrava, E nem um poema fulgura, Nem um verso se me crava A fundo na carne ou grava Na alma qualquer gravura Ai tempo de sangue e lava, O tempo em que eu te abraçava, Meu amor, e em que enlaçava cada noite p’la cintura Dormes o sono dos justos Enquanto eu, até às tantas, Ceifo sombras, sonhos, sustos, Sofro a insónia que implantas... Mar vivo de um tempo morto Sem rapsodos, aedos... Ai tempo, mais que remoto, em que tínhamos um porto (sempre, sempre, sempre um porto) No cerne dos arvoredos.
Nosso tombo e nosso ópio / POENTINO 226


(E beijo ainda o teu corpo
nos meus dedos!...)


Nosso tombo e nosso ópio Nossa noite Nosso dia Corpo à sombra de si próprio Cântico desta agonia Pernas Braços — um bailado Orquestrado em convulsão. Ó corpo — oceano encrespado, Crispado mas navegado Por um corpo, um outro Corpo — embarcação. Varado de lado a lado Corpo teu martirizado Lava do mesmo vulcão Corpo ó corpo aprisionado À minha libertação
POENTINO
        De meses velozes         De pausas iguais         Às vezes, as vozes         E cães no cais.         Cães no cais.
POENTINO (Cont.) 227


        Doce, a Morte dá-se
        À tarde que desce
        Como se fosse
        A Sombra sem face
        Do ar, que fenece...

        Auréola-rainha,
        Em Deus me coroo
        De vozes e véus
        Em vôo, nos céus...
        Sou rei que dos réus
        (só de réus) se avizinha.
        Do céu absolvo
        Todos, e abençoo.
        É tarde, Atordoo.
        O dia definha...

        Faces afeiçoo
        — As doutros à minha —
        E parto (e perdoo)
        Com asas sem voo
        Onde o céu aninha!

        Doce, o espaço.
        No espaço, a criança
        (Apagou-se o olhar...)

        — Faço de cada braço
        Uma lança.
        E qual Arca da Aliança,
        A Noite dansa, ao luar...
A luz desiste, em sol-posto / POEMA DE FINADOS 228


        A luz desiste, em sol-posto.         À praia do Tempo, vasto,         Vem, solene, o sono, e veste-a         — Dando de riste no rosto         Que vai no rasto da réstea.         Engodo de infinito intacto,         A cingir, na planície do Fim,         Todo eu me agito e debato         Para vir à superfície de mim.         Mas nem sinal, por mais brando,         Lá de onde eu me sumo, assoma.         — Entanto, irreal errando,         Demando o rumo de Roma!
POEMA DE FINADOS
        Eleger as «Elegias do Duino»         Como se acaso não tivessem dono.         Em troca, depois ceder, ao poeta poentino,         Quanto cá dentro amotino,         Quanto de alma desmorono.         Tocar a rebate o sino         Entre o silêncio e o sono.         Entrar pela treva. E logo em seguida,         Brandir num archote clarões de clarim.         Já o luto se eleva, se eleva da vida,         E vivos e mortos na noite em ferida         Vão dando o mote para o motim.
POEMA DE FINADOS (Cont.) / CANTO PRIMEIRO PARA ... 229


        Ei-los, a todos, enfim, como dantes —
        Sérios, serenos em seus mil recintos.
        Tão distantes. Tão distantes.
        Sim, distantes...
        E distintos!


CANTO PRIMEIRO PARA BEATRIZ
        Sonora, na prece         Do Amor suspensa,         Se enflora e floresce a flor         De Florença!         Milagrosa e bem-amada         Rosa alada além alento         — Emoldurada         Em Tempo.         Lá a diviso, ilesa         — Vitoriosa da flora infernal.         Imperiosa, impera. E o Paraíso reza         Ao riso de uma rosa ascensional!         Miraculosa e bem-amada         Rosa alada além alento         — Emoldurada         Em Tempo.
SEGUNDO CANTO PARA BEATRIZ / TEMPLO DA NOITE 230


SEGUNDO CANTO PARA BEATRIZ
        Vertiginosa, aspira         Ao esperanto da espiral         — Rosa-loiro, Rosa-lira,         Rosa do Santo Graal!         Rosa-rosto, augusta, esguia.         Rosa alterosa da altura         Que este gosto a angústia que angustia         Altivo procura.         Rosa-duende. Desmedida asa,         Exposta ao sol de sempre,         Que ascende a vida rasa         À rosa mística clemente.         Na volúpia da voluta         Volante que se expande, transbordante ainda         — Rosa distante.         E distinta!
TEMPLO DA NOITE
Da face da noite apoiada na mão O sonho descole Em direcção Ao sol E ao silêncio campal sem onde nem quando Que eu próprio comando, guio e governo Lá pelo umbral sombrio do sono avançando dentro Do eterno!
TEMPLO DA NOITE (Cont.) 231


Refúgio que refugia
Quem ao futuro se afoite
— Procuro no dia não sei que outro dia,
Procuro na noite sei lá que outra noite...

A noite conduz
A farol sem fronteira.
É cruz no escuro,
Que o escuro reduz e engole:
cruz-olheira.

— Procuro na noite não sei bem que sol,
Procuro na luz não sei que cegueira!

.......................................................................

E numa ameaça que profana
O coração da Noite Humana,
Passa, então, (passa, perpassa,
Pelo templo da amplidão),
Toda em prece, toda em praça,
A insónia da desgraça,
A insana procissão:

Profusão de caravana,
Sempre à flor da incessante imensidão
Da savana,

Em cantochão
De aflição
Que não engana...

E é a cúpula, o cume, o cúmulo
De um tumulto feito cântico
Em audição de mil mágoas!
COROLA DO DIA / SIBILINA 232


É a absolvição
Soberana!...

E, por último, sobre o túmulo
Atlântico
Das águas,

É, então,
A aluvião:

— Aluvião
Diluviana!


COROLA DO DIA
        Onde a manhã habita, sem desvãos,         E à coroação nos elevas         — Seja a visita das mãos         Afastando as trevas.         Seja a rosa florentina,         Seja o cálice do incenso         Que lá da neblina germina e nos ilumina         De imenso!...
SIBILINA
        De repente Luz fluente         Rompe uma fonte secreta         Dentre o silêncio estridente         Da tarde quente e quieta.
SIBILINA (Cont.) / CONSOADAS DA MEMÓRIA À MESA ... 233


        Música ausente Vertente
        Monte a monte ressurrecta
        Horizonte transparente
        Seta em frente Linha recta

        Cântico lânguido Semente
        que latente lateja encoberta
        Ponte do poeta ao poente
        Sonho-ambiente sem meta
        Nem vislumbre alvinitente

        Sou profeta Penitente
        Etecétera
        Sempre sempre
        Além álerta


CONSOADAS DA MEMÓRIA À MESA DA SOLIDÃO
                                                         Muito para os meus filhos, Rodrigo Víctor,                                                     Filipa Catarina, Gonçalo Thomaz e Cons-                                                     tança Filipa. 1. Não se altera o altar que da altura do nada nos reergue ao lugar da consoada. Não se extingue a estrela e mais se expande em estrada o fulgor que vem dela — bem como o temor de entrevê-la entrevada.
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