Faça chuva ou faça sol,
orvalhada ou nevoeiro,
vai-se jogar futebol,
não no adro ou no terreiro,
mas em campo de erva mole:
O Estádio Thomaz Ribeiro!
Tenho cá o fatal pressentimento
Tenho cá o fatal pressentimento
Tenho cá o fatal pressentimento
de que um ano, ou dois, depois de eu ter morrido,
os meus filhos hão-de erguer um monumento
ao Pai Desconhecido...
Casa de São José, em Parada de Gonta, aos 18 de Fevereiro de 1994.
Love Story
Love Story
O meu Gonçalinho corre
sempre atrás da mesma Estrela;
e morre
por voltar, um dia, a vê-la.
Temendo perder-lhe o rasto,
confessou-me:
— Estrela, pai, não é astro,
mas um nome.
(Fiador d`amor tão casto,
abracei-o; e ele beijou-me.)
To my master's voice
To my master's voice
Que maravilha!
Que maravilha enorme!...
A voz da minha filha
ao telefone.
Aquela sua voz cheia de névoa…
O véu em voo daquela branda voz de bruma
que todo eu ouço. (Oiço, não; não ouço: bebo-a,
bebendo-lhe as palavras, uma a uma!)
Que maravilha!
Que maravilha sem nome!...
A minha filha,
hoje, telefonou-me.
Para a menina de seu pai,
Para a menina de seu pai, Trint`anos depois...
A minha filha primeira
nasceu após o Natal.
Esta lágrima... Esta olheira...
datam do seu funeral.
Tinha um perfil tão perfeito
— de filigrana franzina,
essa menina-de-peito
que me morreu, em menina...!
F`lipinha não se esvai...
Faz hoje anos. Trinta anos!
Veio convidar o pai
para a festa ser de ambos...
Bem-hajam e até mais ver!
Bem-hajam e até mais ver!
Quando eu morrer,
não haja alarme!
Não deitem nada,
a tapar-me:
— nem mortalha.
Deixem-me recolher
à intimidade da minha carne,
como quem se acolhe a um pano de muralha
ou a uma nova morada,
talhada pela malha
da jornada...
— E que uma lágrima me valha...!
Uma lágrima — e mais nada...
Transantúltimas vontades
Transantúltimas vontades
A meus filhos — para que as
cumpram, ou não, e as façam
(ou não) cumprir.
Meninos, tomem sentido:
amanhã já não me acordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.
Vou morrer menino e moço,
sem pátria nem parentela,
com esta cruz ao pescoço
e a coroa real na lapela.
Pretendo um inteiro olvido.
Não quero que me recordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.
5 Quadras à solta, como 5 velas d’anos em louvor do Tiaguinho
5 Quadras à solta, como 5 velas d’anos em louvor do Tiaguinho e do principe seu irmão
Há dois postigos que trago
sempre no peito comigo:
por um, espreita o Tiago;
por outro, espreita o Rodrigo.
De cada vez que os abro,
fica-me parvo o umbigo,
ao ver: de um lado, o Tiago;
do outro lado, o Rodrigo.
Comem uvas, bago a bago;
papam figos, figo a figo...
Não perde um bago, o Tiago,
Não perde um figo, o Rodrigo.
(Se o bago te fôr amargo,
põe-no de lado, Tiago!
Larga o bago! Evita o perigo!
Troca por figos o bago;
depenica com o Rodrigo.
... E, sem causares grande estrago
chama um figo a cada figo!
Por este andar, não acabo
e ainda apanho um castigo
do Rodrigo ou do Tiago
ou até, do Pai Rodrigo...
...e, então, é que é o diabo...!
Estou feito ao bife comigo!...
Sendo assim, já não vos chago
mais por hoje, com o que digo.
Parabéns, para o Tiago!
... E oito chôchos, p’ró Rodrigo.
Há dois postigos que trago
sempre no peito comigo:
ligo um – sai-me o Tiago;
do outro – sai-me o Rodrigo.
(Nunca por nunca os apago
dos olhos de avô e amigo!...)
Estoril, aos 8 de Dezembro de 2003: Dia de Nossa Senhora da Restauração e dia d’anos, também, do meu portentoso neto Tiaguinho.